Em 26 de
janeiro de 1979, o México viveu um acontecimento sem precedentes: pela
primeira vez em sua história, um Papa pisava em solo mexicano. A chegada de João
Paulo II ao Aeroporto Internacional Benito Juárez foi, desde o primeiro
instante, um evento extraordinário.
Embora o
México fosse — e continue sendo — um país legalmente laico e não mantivesse
relações diplomáticas com a Santa Sé desde o século XIX, naquele dia essas
formalidades pareceram desaparecer. O povo mexicano saiu às ruas de forma
espontânea e multitudinária para receber o Pontífice. Uma verdadeira corrente
humana ocupou ruas, telhados, pontes e todo lugar de onde fosse possível
acompanhar a passagem do Papa, ao longo do trajeto que ia do aeroporto até a
sede da Nunciatura Apostólica.
As
multidões, entre aplausos e aclamações, exaltavam João Paulo II com fervor. A
emoção coletiva era tamanha que, se algum político tivesse sugerido proclamá-lo
“rei do México”, certamente a multidão o teria apoiado. O percurso, normalmente
feito em cerca de vinte minutos, estendeu-se por quase duas horas, pois
as pessoas tomavam as ruas para vê-lo mais de perto. O Papa, visivelmente
emocionado, não parava de acenar e abençoar, mesmo quando o sol forte e o
cansaço quase lhe causaram uma insolação.
A recepção
foi apoteótica. Praticamente todo o país permaneceu em clima de festa
durante a semana em que João Paulo II esteve no México: serenatas, aplausos
intermináveis, oferendas de flores; mães e avós chorando abertamente ao ver
passar o primeiro bispo do mundo; crianças, jovens e adultos de todas as
classes sociais unidos em uma só alma, apenas para contemplar, ainda que de
longe, o sucessor de São Pedro na terra.
A marca
deixada por aquela visita foi tão profunda que, durante boa parte do restante
do século XX, inúmeras mães deram o nome João Paulo a seus filhos, e
esse mesmo nome passou a batizar ruas, avenidas e praças em diferentes regiões
do país.
No entanto,
um dos momentos mais comoventes ocorreu em 30 de janeiro de 1979, quando
os coros do Instituto Miguel Ángel e do Coro México cantaram para o Papa a
canção Amigo, de Roberto Carlos. Muitos acreditaram que a música
havia sido composta especialmente para ele. Embora já fosse conhecida na voz do
cantor brasileiro, nunca havia alcançado tamanha ressonância quanto depois de
ser entoada diante de João Paulo II, que, profundamente tocado, pediu às
crianças do coro que a repetissem.
Aquele
instante ficou para sempre gravado na memória coletiva do México, como símbolo
do carinho, da fé e da emoção de um povo que, por alguns dias, sentiu-se mais
unido do que nunca.
Quando
chegou o momento da despedida, o fervor não diminuiu; ao contrário, tornou-se
mais íntimo e doloroso. Multidões voltaram ao Aeroporto Internacional Benito
Juárez para dizer adeus. Já não havia gritos festivos nem aplausos, mas
lágrimas contidas e vozes trêmulas que, quase instintivamente, começaram a
cantar As Andorinhas.
O canto
elevou-se como uma oração coletiva, enquanto o Papa se afastava das terras
mexicanas. Muitos choravam sem constrangimento, conscientes de que algo
profundo partia com ele: uma semana de fé compartilhada, de esperança renovada,
de uma unidade irrepetível. João Paulo II ia embora, mas deixava semeada uma
lembrança que não partia com o avião.
E assim,
entre lenços agitados, olhares voltados para o céu e um nó na garganta, o
México não encerrou aquela visita: deixou-a suspensa no ar, como uma melodia
que se recusa a se apagar, como um adeus que, ainda hoje, continua sem ser
completamente pronunciado.

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