jueves, 5 de febrero de 2026

JOÃO PAULO II NO MÉXICO, UMA VISITA QUE FICOU PARA SEMPRE NA MEMÓRIA DO POVO MEXICANO


 

Em 26 de janeiro de 1979, o México viveu um acontecimento sem precedentes: pela primeira vez em sua história, um Papa pisava em solo mexicano. A chegada de João Paulo II ao Aeroporto Internacional Benito Juárez foi, desde o primeiro instante, um evento extraordinário.

Embora o México fosse — e continue sendo — um país legalmente laico e não mantivesse relações diplomáticas com a Santa Sé desde o século XIX, naquele dia essas formalidades pareceram desaparecer. O povo mexicano saiu às ruas de forma espontânea e multitudinária para receber o Pontífice. Uma verdadeira corrente humana ocupou ruas, telhados, pontes e todo lugar de onde fosse possível acompanhar a passagem do Papa, ao longo do trajeto que ia do aeroporto até a sede da Nunciatura Apostólica.

As multidões, entre aplausos e aclamações, exaltavam João Paulo II com fervor. A emoção coletiva era tamanha que, se algum político tivesse sugerido proclamá-lo “rei do México”, certamente a multidão o teria apoiado. O percurso, normalmente feito em cerca de vinte minutos, estendeu-se por quase duas horas, pois as pessoas tomavam as ruas para vê-lo mais de perto. O Papa, visivelmente emocionado, não parava de acenar e abençoar, mesmo quando o sol forte e o cansaço quase lhe causaram uma insolação.

A recepção foi apoteótica. Praticamente todo o país permaneceu em clima de festa durante a semana em que João Paulo II esteve no México: serenatas, aplausos intermináveis, oferendas de flores; mães e avós chorando abertamente ao ver passar o primeiro bispo do mundo; crianças, jovens e adultos de todas as classes sociais unidos em uma só alma, apenas para contemplar, ainda que de longe, o sucessor de São Pedro na terra.

A marca deixada por aquela visita foi tão profunda que, durante boa parte do restante do século XX, inúmeras mães deram o nome João Paulo a seus filhos, e esse mesmo nome passou a batizar ruas, avenidas e praças em diferentes regiões do país.

No entanto, um dos momentos mais comoventes ocorreu em 30 de janeiro de 1979, quando os coros do Instituto Miguel Ángel e do Coro México cantaram para o Papa a canção Amigo, de Roberto Carlos. Muitos acreditaram que a música havia sido composta especialmente para ele. Embora já fosse conhecida na voz do cantor brasileiro, nunca havia alcançado tamanha ressonância quanto depois de ser entoada diante de João Paulo II, que, profundamente tocado, pediu às crianças do coro que a repetissem.

Aquele instante ficou para sempre gravado na memória coletiva do México, como símbolo do carinho, da fé e da emoção de um povo que, por alguns dias, sentiu-se mais unido do que nunca.

Quando chegou o momento da despedida, o fervor não diminuiu; ao contrário, tornou-se mais íntimo e doloroso. Multidões voltaram ao Aeroporto Internacional Benito Juárez para dizer adeus. Já não havia gritos festivos nem aplausos, mas lágrimas contidas e vozes trêmulas que, quase instintivamente, começaram a cantar As Andorinhas.

O canto elevou-se como uma oração coletiva, enquanto o Papa se afastava das terras mexicanas. Muitos choravam sem constrangimento, conscientes de que algo profundo partia com ele: uma semana de fé compartilhada, de esperança renovada, de uma unidade irrepetível. João Paulo II ia embora, mas deixava semeada uma lembrança que não partia com o avião.

E assim, entre lenços agitados, olhares voltados para o céu e um nó na garganta, o México não encerrou aquela visita: deixou-a suspensa no ar, como uma melodia que se recusa a se apagar, como um adeus que, ainda hoje, continua sem ser completamente pronunciado.

 

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