Houve um tempo — não tão distante, mas muito diferente do de hoje — em que a música chegava até nós como um pequeno ritual diário. Em León, Guanajuato, existia uma emissora de rádio que parecia alcançar todo o estado: LG La Grande. Todos os dias, das uma às duas da tarde, quando o sol estava forte e o dia dava uma pausa, começava um programa que marcou muita gente. Chamava-se Os Três Grandes da LG e, durante uma hora inteira, três vozes dominavam o ar: Roberto Carlos, José José e Camilo Sesto.
Não era só música tocando no rádio. Era companhia. Era consolo. Era aprendizado emocional. Sem perceber, a gente aprendia ali como falar de amor, de saudade, de perda, de esperança.
Entre esses três gigantes, houve um que me tocou de um jeito especial desde cedo: Roberto Carlos. Talvez pela clareza das letras, talvez pela suavidade da voz, ou talvez porque suas canções tinham algo raro: eram simples, mas profundas. Algumas traziam mensagens diretas, quase como conselhos; outras eram declarações de amor sem rodeios. Mas todas tinham algo em comum: eram bem feitas, bem cuidadas e cheias de verdade.
Lembro que, quando criança, cheguei a pensar que Roberto Carlos fosse mexicano. Não me parecia possível que alguém de outro país dominasse tão bem o espanhol e soubesse falar de amor de um jeito tão próximo do nosso. Canções como Amigo, Detalhes, Amada amante, Um gato no escuro, Emoções, O dia em que me quiseres, Se o amor se vai, Pleno verão, Proposta ou O amor e a moda não eram apenas músicas que tocavam no rádio. Elas ficavam com a gente. Acompanhavam nossa vida, primeiro sem que notássemos, depois como parte da nossa própria história.
Com o passar do tempo, a forma de ouvir música muda. A gente começa a prestar atenção nos detalhes, nos arranjos, nas palavras bem escolhidas. E é aí que fica claro: Roberto Carlos é um compositor completo e extremamente prolífico. Sua popularidade não diminuiu com os anos — pelo contrário. Como um bom vinho, sua obra amadureceu. Hoje ela parece ainda mais valiosa, talvez porque o tempo tenha sido seletivo.
E aqui falo de forma muito pessoal: o cenário musical mudou bastante. Hoje existem muitas músicas feitas para durar pouco, pensadas para o momento, para a moda do mês. Bons letristas são cada vez mais raros, e muitos músicos já não se preocupam em criar algo que atravesse gerações. Nesse contexto, as canções de Roberto Carlos continuam firmes. Elas resistem. Elas permanecem.
Roberto Carlos também não foi apenas um fenômeno no Brasil. Sua música atravessou fronteiras com uma naturalidade impressionante. Ele foi ouvido em toda a América Latina, cantando em português, espanhol e italiano — e, em alguns momentos, até em inglês e francês. Poucos artistas conseguem isso sem perder sua essência. Ele conseguiu porque falava algo que vai além do idioma: falava direto ao coração.
E talvez o mais bonito de tudo seja isso: apesar da fama, dos palcos lotados e de uma carreira gigantesca, Roberto Carlos sempre manteve algo muito humano. Simplicidade. Calor. Proximidade. Ele nunca pareceu distante do seu público. Pelo contrário, sempre deu a sensação de estar ali, perto, cantando para cada um de nós.
Ouvir hoje aquelas músicas que tocavam em Os Três Grandes da LG é voltar, por um instante, àquela uma da tarde parada no tempo. É lembrar que houve vozes que nos ensinaram a sentir antes mesmo de sabermos explicar o que sentíamos. E nessa memória, Roberto Carlos continua presente: sereno, verdadeiro, humano, cantando como se nunca tivesse ido embora.

